sexta-feira, 28 de outubro de 2011
O amor e o ódio
Dia cansativo.Procurou com dificuldade a chave nos bolsos da jeans surrada e suspirou
aliviada quando finalmente ouviu o trinco cedendo.
Seu nariz retraiu-se quando ela aspirou o ar da cozinha.Enganara-se ela pensando que seu
olfato já havia se acostumado com o frequente cheiro de mofo e podridão.Mas hoje estava pior.Quase insuportável.
Pendurou o mochila no encosto de uma cadeira, e torcendo o dedo sobre o nariz aproximou-se do fogão.Bichos.Sim eram bichos, larvas brancas e nojentas contorciam-se do que parecia ser restos de macarrão.Repugnada empurrou a panela para o chão, derramando todo o fétido conteúdo no chão.
Abriu a porta do quarto e sua pele arrepiou-se com o rangido da madeira velha.Roupas pelo chão, objetos por toda a parte.Não se enxergava nada através dos vidros da pequena janela. Ao menos, ali não fedia tanto.
Deitou na pequena cama de solteiro e fechou os olhos.Antes que pudesse esboçar qualquer reação, as lágrimas já haviam invadido seu rosto.Que diferença faria tentar evitá-las?Não havia mesmo ninguém por ali.Não mais.
Abraçou as próprias pernas e enfiou seu rosto molhado entre os joelhos.A dor frequentemente ameaçava despedacá-la.E por mais que ela tentasse apagar as lembranças, elas sempre voltavam e traziam com si a angústia, agonia, solidão, tristeza.
Era uma casa pequena, mais estava sempre limpa e bem organizada.Ela realmente acreditava que eram felizes.André.Ainda amava-o tanto.
Mudaram para lá 6 meses antes, um bairro modesto, uma casa modesta.Mais ela não se importava.Sempre tinha um sorriso nos lábios e sempre satisfeita com tudo.
Quando eles se encontravam no final da tarde e ele lhe dava aquele beijo mágico-que a tirava de órbita, impedia-a de pensar- ela pensava que tudo estava bem, que seriam felizes para sempre. Era seu conto de fada.
Mas -até hoje ela não entendia porque- tudo mudou.2 meses atrás ele simplesmente lhe dissera que ia embora.O choque foi tão grande, que ela não fora capaz nem sequer de questiona-lo, implorar, ou o que quer que fosse.
Ele simplesmente a abandonara, assim como todos os outros. Ela deixou tudo por ele. E mesmo assim ele se foi.
Perdera a razão de viver, passou a se alimentar mal, não arrumava mais a casa, não atendia telefonemas.Aos poucos os míseros amigos que tinha foram se afastando.
Havia sentido viver assim ?
Batidas ? Sim, estão batendo à porta. Ela muito aturdida, levantou-se.
André.Alto, belo, deslumbrante como antes, como sempre.Havia aparado o cabelo-tinha um rabo-de-cavalo amarrado no pé da cabeça- o tom castanho claro acompanhado do novo corte caia-lhe muito bem.Estava bem vestido e com um expressão sem graça.
-Hum..Jéssica?
Só ai ela percebeu, que sua boca estava escancarada ao máximo e seus olhos esbugalhados quase saltavam das órbitas.Recompos-se o máximo que pode.Tentou guaguejar algumas palavras, mas a voz fugira-lhe.
-Você está..bem? -Ele passou um olhar a sua volta.
-Você voltou! Voltou para mim. Meu amor! Eu sabia ! - Pulou-lhe ao pescoço, dando-lhe sucessivos beijos onde conseguia alcançar.
Ele afastou-a delicadamente. - Na verdade, esqueci uma caixa..vim buscar.
Ela piscou aturdida e ficou paralisada, incapaz de mover-se.Ele entrou casa a dentro, e em segundos voltou segurando uma pequena caixa de papelão.
-Aqui está. Muito obrigada. E virou-se em direção a porta.
Não. Jamais. Todo esse tempo ela sofrera, chorara, se destruíra. Amor? Não sabia se esse sentimento encontrava-se nela. Mas a dor, dessa vez não a machucaria.
Pegou ligeiramente uma faca de carne em cima da pia. E o gritou.
-Espere André, acho que também tem uns cds por aqui.
Ele exitou um momento e voltou. No momento em que ele cruzou a porta, ela enfiou-lhe a faca peito afora. Dor, angústia, agonia, tristeza. Tudo. Cravou-lhe tudo no peito.
-Talvez eu não te ame tanto quanto pensei.
O corpo grande e pesado de André cambaleou para um lado e outro até desabar para trás derrubando a caixa e um monte de quinquilharias que nela se encontrava. Uma cachoeira vermelha saia de seu peito, banhando-lhe o corpo, enquanto sua face perdia a cor.Ela pegou
a mochila pendurada na cadeira, desviou-se do corpo inerte ao chão. Calculou mentalmente quantos dias seus vizinhos demorariam para encontrá-lo.Muitos.Já haviam se acostumado com o mal cheiro.
Saiu cantarolando e conseguiu até mesmo esboçar um sorriso.
Iria trilhar os caminhos da sua felicidade.
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