sábado, 12 de setembro de 2009

Fantasia

Ela só tinha uma vaga noção do que seu professor de química gritava para a turma barulhenta.
Estava tão absorta no quinto volume de seu romance preferido.Quem visse a voracidade com a qual passava as páginas pensaria que era a primeira vez que ela o lia.Nem perto disso, já era a décima terceira vez.
Ela sentia uma necessidade desesperada de devorar as palavras e sentia como se estivesse dentro da história, juntamente com seu herói.
Alguns meses atrás, ela julgava impossível estar numa situação como essa. Já que não tinha nenhum tempo para ler e nem mesmo se interessava por livros.
Sua biblioteca mental se resumia a gibis, revistas de adolescentes e contos inúteis que era obrigada a ler por sua professora de português.
Não lera um livro sequer com mais de duzentas páginas, quem diria que iria ler um romance em cinco volumes com umas trezentas páginas cada.
O professor deu um berro tão alto, que o susto obrigou-lhe a fechar o livro e olhar para cima.
Seus olhos antes brilhantes e apaixonados agora estavam obscuros e raivosos.Ela estava furiosa com a interrupção logo no momento em que seu herói abandonava a mulher que amava para protegê-la do perigo.
Levantou-se bruscamente e fingiu cambalear se apoiando nas mesas com o livro escondido nas costas.
Colocou a mão na frente da boca e fingindo que estava prestes a vomitar, pediu licença ao professor e saiu apressadamente da sala esbarrando acidentalmente em alguém que subia as escadas.
Virando-se para pedir desculpas, reconheceu a responsável por sua paixão por leitura.
Algum tempo atrás ela esbarrara naquela mesma menina que parecia mais um vulto e que ela reconhecia vagamente da sua turma de laboratório.
A menina deixou cair um livro velho e esfarrapado - o mesmo que ela trazia agora nos braços - e quando ela abaixou-se para apanhá-lo a menina tinha desaparecido tão misteriosamente como aparecera.
Ela levou o livro para casa e como não tinha nada a fazer a noite, resolveu folhea-lo.
No dia seguinte comprou os quatro primeiros volumes e agora já os havia lido várias vezes.
A visão da menina causou-lhe um pavor repentino. Ela abraçou-se ao livro e desceu correndo as escadas e mesmo sem olhar para trás sabia que a menina estava em seu encalço.
Ela sentiu-se como a mocinha que fugia desesperadamente de seus algozes para encontrar-se com seu amor.
Ao passar pelos portões da escola correu para o meio da avenida e deteve-se um momento para constatar que a menina estava parada no meio fio.
Virou-se satisfeita e mal sentiu o choque do ônibus contra seu corpo frágil.
Girar a cabeça causou-lhe uma dor imensa e ela se imaginou a mocinha que fora capturada pelos vilões e agora queimava numa fogueira enorme, clamando por seu amor.
Ela olhou para a menina parada a alguns metros e decifrou sua expressão como tristeza por estar vendo-a queimar ferozmente.
As pessoas que se ajuntavam a sua volta eram para ela os algozes de sua história e suas expressões assustadas eram sorrisos diabólicos.
Ela começou a chamar - no que pensava ser um potente grito, mas não passava de um sussuro - o nome de seu herói enquanto as chamas a envolviam completamente.
Fechou lentamente os olhos, ainda pensando estar na história do seu livro e esboçou um sorriso.
Ela ficaria chocada se soubesse que a expressão da menina era apenas decepção por ver seu livro banhado em sangue.
A menina enfiou as mãos nos bolsos e sumiu mais silenciosa que sua própria sombra.


Dedicado à Márcia de Barros

2 comentários:

Anônimo disse...

poxa migahh eh super lgl mais vc tinha q me matar eh?hauhauahua brincadera!
xD brigada!

D. Oliveira disse...

hahahaha.... pergunta tão comum e simples de responder !
Que graça tem o conto, se você ficar viva ? hahahahaha NENHUMA... s2